Como está seu olhar interno?

Há três dias passei por uma cirurgia de catarata no meu olho esquerdo. Já vinha perdendo a visão gradativamente nesse olho, mas com as turbulências da pandemia acabei adiando a decisão, até o ponto em que ela se tornou tão importante que não houve mais como ignorar. No dia seguinte fui retirar o curativo e passei a tarde com a visão ainda um pouco distorcida, mas já notando a melhora.

Ontem, acordei diferente. De repente, todas as cores ficaram mais coloridas, vibrantes. Passei a enxergar o que já não via há tempos. Foi como se estivesse usando um filtro de fotografia, desses que os melhores celulares têm, que transformam a imagem deixando muito mais bonita e luminosa. Parecia que eu tinha voltado a ver com os olhos da Luciana de 15 anos de idade… nem lembrava mais como era.

Além do enorme sentimento de gratidão, isso me levou a uma reflexão. Pensei: quantas vezes em nossa vida deixamos de enxergar a real beleza em tudo o que está à nossa volta? Ou pior – quantas vezes simplesmente esquecemos o quanto a vida pode ser bela, colorida, rica.

Fazendo um paralelo com meu trabalho e as pessoas que atendo, percebo exatamente isso. Em algum momento de nossas vidas, ou geralmente em vários deles, vamos aos poucos perdendo nossa capacidade de visão. Passamos a enxergar distorcido, enxergar menos, pois certas experiências que vivemos turvam nossa visão, distorcem nosso olhar, deixando uma opacidade em tudo o que a vista alcança, como a catarata ou outras doenças que nossos olhos “externos” possam ter.

Essa opacidade, essa doença dos nossos “olhos internos” – os olhos da alma, nasce das nossas crenças negativas, aquelas que eventualmente aprendemos e nos afirmam não sermos bons o suficiente, ou não merecermos o que é bom, ou não sermos dignos de amor, ou mesmo que o mundo e as pessoas são maus por natureza. Aos poucos nossa visão torna-se opaca e tudo passa a ter menos cor, menos brilho. Com menos cor e brilho o mundo não é mais tão atrativo e vamos perdendo a motivação para explorá-lo –  aquela emoção básica com a qual nascemos de buscar, descobrir, aprender, transformar, vai diminuindo até perder a razão de ser.

Quantas pessoas existem que já não sentem essa atração pelo novo, pelo aprender, por explorar e transformar a si mesmas e ao mundo? Quantas pessoas vemos que já não experimentam aquela curiosidade natural com que chegaram aqui? Repare nos olhos de uma criança de 2, 3 anos e verá um brilho, uma vivacidade. Por esses olhos tudo o que entra é novo e interessante, tudo é motivo para aprender. Mas, se essa criança passa por tantos momentos difíceis e vive repetidamente situações onde é desqualificada, desamparada, violentada em seu direito de ser amada e cuidada, esse brilho vai sumindo!

Olhe para sua criança interna. Onde foi que ela perdeu o brilho do olhar? Em que momento ela aprendeu que não era seguro explorar o mundo, aprender, se arriscar, buscar pelo novo? Quando ela ficou sabendo que não era suficientemente boa ou digna de amor?

Nosso cérebro regista tudo o que experimentamos, ele é perfeitamente voltado para processar tudo, todas as informações que recebemos, de forma a continuarmos tirando dele e de todo o nosso corpo o máximo proveito. E ele vai fazer seu trabalho, e continuar fazendo incessantemente, até mesmo quando aquilo que vivemos esteja além de sua capacidade de processamento. Nesses casos, ainda assim ele encontrará defesas, alguma forma de continuar processando e nos manter vivos, mas tudo tem um preço. Quando o custo for alto demais ele precisará bloquear algumas coisas, construir algumas defesas, se adaptar. E em meio a tudo isso nossa visão ficará mais turva, em meio a muitas experiências difíceis criaremos crenças que nos limitarão para que não soframos novamente. E assim vamos adoecendo nossos olhos internos e deixando aos poucos de enxergar com nitidez, ver todas as cores… vai entrando menos luz, e sem ela tudo fica mais escuro e sem graça, a opacidade do nosso olhar interno nos rouba o brilho de viver.

Cure sua catarata interna. Você não lembra, mas acredite: o mundo pode ser muito mais bonito! A vida pode voltar a ter cor, você pode voltar a desejar e buscar como uma criança. Tudo isso está dentro de você, nunca se perdeu, e nem se apagou, apenas está encoberto por uma nuvem espessa. Quando esquecemos o quanto podemos ter vivacidade e energia, com o tempo achamos que isso é natural, que o tempo passou e não as teremos de volta. E assim vamos nos acostumando a viver uma vida com menos, vamos abandonando nossos sonhos e ideais, vamos perdendo a conexão com nossa essência, levando uma vida incongruente e distanciada do nosso propósito.

Reencontre-se com sua criança interior, busque ajuda se for preciso, reconecte-se com sua essência. Faça uma cirurgia em seus olhos internos, você irá se surpreender ao receber de volta o brilho e as cores que há muito tempo já não via.

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